terça-feira, 31 de agosto de 2010

RELIGIÃO E ESTÉTICA: UM OLHAR SOBRE O AFRO-BRASILEIRO EM MACEIÓ.
Igor Luiz Rodrigues da Silva *[1]
Larisse Louise Pontes Gomes*
Natalia Teles de Bezerra*
Resumo

A cultura africana se compõe de uma variação rica e acima de tudo cheia de magia e encanto, uma cultura composta de significados religiosos. Na religião africana, o culto ao sagrado é uma celebração de cores, gestos, sabores. Portanto, o presente estudo é uma forma de conhecer e tentar revelar o quão rica é a cultura afro, sua influência no cotidiano de cada indivíduo no seu contexto social, observando o aspecto estético do culto e sua identidade cultural. O Brasileiro com o seu jeitinho de cidadão livre de qualquer preconceito muitas vezes não percebem o impacto que a cultura afro tem em sua vida e em situações ou manifestações que há uma grande movimentação da cultura afro, é provocada curiosidade, o que de certa forma é normal, se tratando principalmente a religião do Candomblé. No dia 08 de Dezembro dia de Iemanjá, uma grande movimentação ocorre na orla de Maceió. São giras de várias cidades do interior, provenientes de terreiros incontáveis. Oferendas, músicas e modos de vestir regrados pela religião chamam a atenção de quem passa e tal manifestação atrai mais pela curiosidade do que pelo conhecimento.
Palavras- Chave: Religião; Xangô; Estética e Iemanjá.

Summary
 
The African culture is composed of a rich variation and above all full of magic and enchantment, a composite culture of religious meanings. In African religion, the cult of the sacred is a celebration of colors, gestures, flavors. Therefore, the present study is a way to meet and try to prove just how rich is the African culture, its influence on daily life of every individual in their social context, noting the aesthetic aspect of religious and cultural identity. The Brazilian with his knack of citizens free from any bias often do not realize the impact that has on African culture and their life situations or events that there is a great movement of African culture, curiosity is provoked, which is somewhat normal, especially when it comes to religion of Candomblé. On 08 December Day of Iemanjá, a large move occurs on the edge of Maceió. They are cute in many cities, from countless yards. Offerings, modes of dress and music ruled by religion the attention of passers by and such event attracts more by curiosity than by knowledge.
Keywords: Religion; Shango; Aesthetics and Iemanjá.


Introdução
O Brasil é conhecido internacionalmente pela sua diversidade cultural, social e religiosa, o que caracteriza o país como sendo plural em suas formas e constituição. Dentre esses demarcadores culturais pode-se com grande êxito citar a cultura africana que é introduzida no Brasil no tempo áureo da escravidão a partir do século XVI. Como meio de estarem ligados ao país de origem, os escravos africanos então reproduziram suas mais variadas manifestações culturais como a dança, música, práticas religiosas e também através das comidas típicas.
Neste trabalho tomaremos como análise central a contribuição da religião de matriz africana na construção e desenvolvimento do imaginário do povo alagoano, em especial da cidade de Maceió através da preservação de suas raízes mais antigas. Este artigo é fruto de uma junção de experiências dos três autores, que durante o périodo de estudantes na Universidade Federal de Alagoas, participaram de algumas pesquisas de extensão cuja a temática era o Candomblé. Levando em consideração a importância e a relevância dos dados estudados este artigo se utiliza de alguns dados do LACC (Laboratório da Cidade e do Contemporâneo), porém o presente artigo não possui vinculo com o LACC, sendo produzido de forma independente pelos autores , sendo aqui abordada a quesrtão estética do candomble  na Cidade de Maceió sendo o  seu principal objetivo descrever como se verifica o campo estético como fundamental na construção simbólica do Xangó, a estética que denota fascínio e beleza aos olhos de quem observa os rituais espalhados pela cidade durante todos os meses do ano, em especial no dia de Iemanjá, onde na cidade de Maceió é comemorado no dia 8 de dezembro. Assim este artigo conta com um recurso fundamental que é o uso da imagem, para comprovar o quanto rico e simples é o campo estético do Candomblé.

1.                O Xangô em Alagoas
Como em outros lugares do Brasil, a religião afro-brasileira em Alagoas tem seu surgimento através do trafico de escravos que eram comprados pelos senhores de engenho para o trabalho nos grandes latifúndios produtores de cana-de-açúcar, principal produto produzido nos séculos XVI e XVII.
Em Alagoas a religião afro-brasileira é conhecida como Xangô em que há uma predominância do culto aos orixás de origem Nagô introduzido na cidade de Maceió através dos terreiros de Tia Marcelina, Chico Foguinho e Manoel de Loló. A explicação mais aceitável para justificar por que se denominar de Xangô a religião afro tanto em Pernambuco quanto e em Alagoas, está no fato de que nesses dois estados existiam e ainda existem muitos filhos de Xangô, já que é caracterizado miticamente como um rei.
Para os antropólogos Bruno César Cavalcante e Janecléia Pereira Rogério, muito do passado da história afro-alagoana e dos terreiros alagoanos é pouco conhecido, não existindo uma bibliografia sifuciente que investigue o passado da religião no Estado, havendo apenas poucos escritos e muito deles não provem de fontes confiáveis.
Vários fatores colaboram  para esse cenário de esquecimento da memória negro-alagoana por  parte dos estudiosos locais que poderiam ter efetuado maior registro documental sobre a matéria. O maior deles sendo essa espécie de trauma social advindo dos terríveis acontecimentos de fevereiro de 1912, a saber, a agressão física aos terreiros e a seus lideres religiosos, que dificultou a afirmação afro-religiosa na cidade por décadas, desencorajou o envolvimento com o tema visando seu estudo.[2]
O Quebra de Xangô ocorrido em 1912, como ficou conhecido o brutal episódio, foi um fato marcante na historia alagoana onde vários terreiros foram destruídos, entre eles o de Tia Marcelina, talvez o mais famoso da época, visto que este era o terreiro que o até então governador da época,  Euclides Malta freqüentava, fazendo várias suas visitas ao terreiro. O que levava a seus opositores relacionar suas vitorias frente o poder do Estado diante de suas contantes visitas ao terreito de Tia Marcelina, o que gerou o forte sentimento de inveja e preconceitos, assim os opositores resolvem por meio da força armada aniquilar da sociedade alagoana toda e qualquer manifestação religiosa que diga respeito as origens africanas, acarretando a saída de muitos líderes religiosos do estado e se fixarem em outros estados do país.
Por conta desse episodio podemos compreender por quê por muito tempo as manifestações religiosas afro-brasileira no estado de Alagoas ficaram atuando na clandestinidade ou por vezes deixaram de existir. Os que continuaram existindo passaram a fazer os seus toques se utilizando apenas as palmas e rezando para os santos, ficando esta forma de realização de toques conhecida com o “Xangô rezado baixo”, uma marca peculiar dos terreiros em Alagoas por anos. No ano de 1912 existiam em Maceió cerca de 12 terreiros distribuídos principalmente nas regiões do Centro, Jaraguá, Levada, Mutange, Trapiche da Barra, Poço e Bebedouro, como enfatiza Cavalcante e Rogério:
Dado o pequeno perímetro urbano da cidade, suas margens situando-se ainda entorno do centro, as localidades da Levada (com 3 terreiros), do Mutange ( com 1), de Bebedouro ( em sua parte mais remota, então denominada “Frechal de Cima”, com 1), do Poço (na verdade, os arrebaldes do Reginaldo e do Guladim, com 3), de Jaraguá ( zona portuária, com 1), do próprio Centro ( com 2) e do Trapiche da Barra ( então um arrebalde distante, com 1) aparecem como áreas do Xangô maceioense [...][3]
O Ultimo levantamento sobre os terreiros de Candomblé, ou para recorrer ao termo usado no Estado de Alagoas, os terreiros de Xangô, foi concluído em 2007[4] e apontaram para um crescente e bastante significativo número de casas que realizavam suas atividades normalmente na cidade de Maceió agora se encontra naqueles anos tinha a quantidade de 466 terreiros distribuídos em 43 bairros da capital[5]. Tal aumento pode ser explicado por dois motivos peculiares do contexto brasileiro, o primeiro pela redemocratização implantada na década de 1980 onde através da Constituição Federal de 1988 estabelecia o livre direito a pratica de qualquer religião no território nacional. O segundo motivo esta contido pelo processo de modernização e globalização espalhado por todo planeta uma onde que converge para a homogeneização das culturas e indo em sentido contrário estão os grupos étnicos que conseguem sobreviver as tais circunstâncias através das variadas maneiras de se cultuar os antepassados e da organização social e política que os diferenciam das chamadas sociedades dominantes.
Assim procurando perceber que através desse processo de pertencimento é que se dá a construção da identidade coletiva dentro do espaço de mobilização social frente aos moldes dominantes de vida. A cultura nesse sentido afro-brasileira é fundante para  elevar o valor histórico para a garantia de direitos e deveres na sociedade. Como afirma Sara J. da Silva: “Igualmente, encontrar as características da diferenciação é necessário dado a multidimensionalidade da identidade numa  perspectiva de recusa à homogeneização porque esta é mortífera a realidade psíquica e cultural.”[6]

2.       ESTÉTICA RELIGIOSA

O objetivo do estudo é compor uma análise sobre a estética do Candomblé, sua influência nos diversos segmentos da sociedade, em especial a maceioense , seu valor simbólico que influencia, interage e compõe uma identidade cultural única e rica.
As fotografias utilizadas neste trabalho foram realizadas no dia 08 de Dezembro de 2008 e de 2009, Dia de Iemanjá, em alguns pontos na orla da cidade de Maceió. O olhar foi atraído para a estética e a simbologia da religiosidade afro-brasileira enquanto aspectos que fortalecem a identidade cultural e religiosa do povo de santo. O candomblé, em Alagoas foi marcado pela repressão sofrida pelos terreiros e seus adeptos, cujo ápice foi o episódio do “quebra-quebra” dos terreiros de Maceió, em 1912.
2.1. LACC
O Laboratório da Cidade e do Contemporâneo - LACC é um “coletivo que reúne professores pesquisadores e estudantes interessados em diferentes fenômenos contemporâneos, mas tendo todos eles o propósito de aliar a reflexão em teoria social à intervenção sobre a realidade social e histórica da cultura. Através de suas linhas multitemáticas de estudos e de pesquisas empíricas na tradição da antropologia, agrega indivíduos e efetua ações de ensino, pesquisa e extensão no ambiente acadêmico. As trocas interinstitucionais de experiências, a organização de encontros científicos e outros eventos acadêmicos, a produção e publicação de artigos e livros são elementos importantes do ideário elaborado pelos membros do LACC.” Foi formado em 2004 e tem como coordenadores os professores Rachel Rocha de Almeida Barros e Bruno César Cavalcanti que vem somando importantes contribuições à população afro-brasileira principalmente em Alagoas, através de pesquisas e disseminação da cultura afro. Pertencente ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas desenvolve as seguintes linhas de pesquisa: 

* Cultura e Política
* Culturas e Sociabilidades Urbanas
* História, Identidade e Territórios
* Produção/Reprodução Cultural e Inovações Tecnológicas
* Teorias da Cultura e Contemporaneidade

3.       Dia de Iemanjá e Estética do Povo de Santo
O Dia de Iemanjá que em Maceió é comemorado todo dia 8 do mês de Dezembro, é um evento que simboliza a força do povo de santo quando manifesta sua fé, quando se prepara através de roupas, levando suas flores e referências ao mar para Iemanjá. Tudo começa muito cedo, muitos grupos de todas as cidades do estado chegam para prestigiar a rainha do mar. A orla da cidade vai sendo tomada por giras provenientes de vários terreiros e seus adeptos vestidos com seus paramentos e indumentárias, com seus cânticos, oferendas e flores.
O apelo estético é de essencial importância já que transcende o superficial e assume uma simbologia. Segundo o estudo realizado pela pesquisadora Vanessa dos Santos o uso de qualquer acessório segue algumas regras:
“... sendo apenas permitida, na confecção dos paramentos do candomblé, a utilização de miçangas, louças e porcelanas, ou ainda, de material de vidro, o que eles costumam chamar de bijuteria vitrificada. (...) Todos os acessórios de uso ritual e litúrgico dos adeptos do candomblé somente poderão ser usados em momentos rituais ou momento designado pelo pai-de-santo que é orientado pelos pedidos do orixá...” (SANTOS, 2010: P. 31)
O significado das indumentárias, paramentos entre outros acessórios é a maneira pela qual os adeptos da religião demonstram quem são seus orixás protetores. Eles não medem esforços para confeccionar os melhores, mais bonitos e bem acabados acessórios, roupas e paramentos para agradar seu orixá e também é uma forma de agradar seu orixá e também é uma forma de agradecer alguma bênção alcançada. Por tamanho valor e significado não é raro, por exemplo, a proibição do toque de contas que não seja o próprio dono, e nem o empréstimo da mesma a outro filho-de-santo.
Outro fato curioso é a evolução na indumentária que caracteriza respectivamente a etapas dentro da religião. Assim que se inicia na religião o abiã, assim chamado usa roupas simples e conforme vai avançando e mudando de estágio há também uma mudança estética, das indumentárias que vão se tornando cada vez mais elaboradas, com cores determinadas e vistosas. Além disso, o uso dos colares pelo filho-de-santo é orientado devido a uma hierarquia do terreiro.
Diante desses destaques é importante salientar que as “regras” nas indumentárias, paramentos e acessórios, além dos toques tem suas especificidades de um terreiro para outro. Por essa razão, que durante o dia de Iemanjá vemos uma verdadeira efervescência de cores, tecidos e toques. São muitas giras de todos os lugares do estado e isso só nos mostra a diversidade e o vasto campo a ser investigado. A curiosidade e a observação são pontos imprescindíveis nessa trajetória, seguido de um registro visual e um senso científico apurado há muito que ser revelado.

4.       SIGNIFICADOS ESTÉTICOS

Os objetos materiais possuem uma importancia muito peculiar em  todas as culturas, porém muito particularmente na cultura religiosa afro-brasileira, solidificando muitas vezes a identidade religiosa do grupo.
  A cultura  material  das  religiões  afro-brasileiras  expõe  nitidamente  as  marcas  dos processos religiosos,  pelos  signos  de  que  vão  sendo  marcados  pelos  objetos como:  cruzes,  cálices,  balanças  e  vários outros associados aos santos católicos e elementos da cultura indígena.
Vamos aqui nos ater as indumentárias e adereços a baixo vamos apresentar algumas figuras expemplificando alguns adereços e logo depois uma tabela exploratória onde temos alguns significados de simbolos estéticos de muita importância dentro do candomblé.




·        C:\Documents and Settings\Cliente\Desktop\DSC06489.jpgFio de Conta Simples:

Conta de uma só volta, que pode ser usada diariamente pelo abiã, já que este ainda não é iniciado, e a cor da mesma sempre faz referência às cores do orixá de cabeça de quem a usa.


C:\Documents and Settings\Cliente\Desktop\LARISSE TUDO\PHOTOS\Exposição Iemanjá\DSC06285..jpg

·   Fio de conta de Iemanjá:

O colar de contas em azul e cristal, representa as cores do orixá Iemanjá. Esse tipo de elaboração, com miçangas diferenciadas, que são orientadas segundo as cores do orixá, somente poderá ser feita pelos que são mais antigos na religiosidade.



C:\Documents and Settings\Cliente\Desktop\LARISSE TUDO\PHOTOS\4- FOTOS 2009\dIA DE iEMANJÁ 2010 Iemanjá [PICASA]\DSC09385 min.jpg

·   Conta de Oxalá:

Seu símbolo representa a senioridade de quem o usa dentro do candomblé e deve ser somente usado nas festas públicas e rituais, não sendo apropriada ao dia-a-dia de quem o porta.





TABELA DOS PARAMENTOS


Paramentos



Função



Momento de Uso



Quem deve usá-lo


Contraeguns



Proteção



Rituais e festas.


Somente os iniciados na religião


Guia



Proteção

Diariamente

Pelos abiãs

Delogun


Proteção


Rituais e festas.



Adeptos com mais de sete anos de iniciação


Seguí

Proteção

Diariamente

Os adeptos mais velhos nos cultos afro-brasileiros


Rungebe


Proteção

Diariamente e por toda a vida

Os adeptos mais velhos nos cultos afro-brasileiros


Coral de Iansã


Proteção

Rituais e festas.


Os adeptos mais velhos nos cultos afro-brasileiros


Brajá



Proteção

Rituais e festas.


Adeptos com mais de vinte e um anos de iniciação







Referência Bibliográfica:
AMARAL, RITA.  A coleção etnográfica de cultura religiosa afro-brasileira do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade  de São Paulo. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, São Paulo, v. 10, 2001.
CAVALCANTE, Bruno Cesár; ROGÉRIO, Janicleia Pereira. Mapeando o Xangô - notas sobre mobilidade espacial e dinâmica simbólica nos terreiros afro-brasileiros em Maceió.
SANTOS, Vanessa Silva dos. JÓIAS DE AXÉ: Etnografia dos Paramentos e Indumentárias de Uso Ritual na Casa de Iemanjá Iyá Ogum-Té, em Maceió - AL.
SILVA, Sara J. da. O Canto no Candomblé - música, cultura e identidade. 2008 



[1] *Igor Luiz é aluno do Curso de Ciências Sociais Bacharelado do Instituto de Ciências Sociais da UFAL;
*Larisse Louise Pontes Gomes é aluna do Curso de Ciências Sociais Bacharelado do Instituto de Ciências Sociais da UFAL;
*Natalia Teles Bezerra é aluna do Curso de Ciências Sociais Bacharelado do Instituto de Ciências Sociais da UFAL;

[2] CAVALCANTE, Bruno Cesár; ROGÉRIO, Janicleia Pereira. Mapeando o Xangô - notas sobre mobilidade espacial e dinâmica simbólica nos terreiros afro-brasileiros em Maceió.

[3] Idem.
[4]  Colocamos dados de 2008 tendo em vista que pesquisas realizadas nos anos de 2008 e 2009 ainda estão em andamento e não possui uma conclusão rígida e capaz de ser descrita neste artigo.
[5]  Dados coletados pelos pesquisadores do LACC em 2008 através das Federações e também no dia de Iemanjá, no dia 08 de Dezembro do mesmo ano.
[6] SILVA, Sara J. da. O Canto no Candomblé - música, cultura e identidade. 2008  

Nenhum comentário:

Postar um comentário