Epigrafe
Saudação A Palmares
“Nos altos cerros erguido
Ninho de águias atrevido
Salve! — país do bandido!
Salve! — pátria do jaguar!
Verde serra, onde os Palmares
— Como indianos cocares —
No azul dos Colúmbios ares,
Desfraldam-se em mole arfar!
Salve! Região dos Valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam,
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sôbre o campo abrasador!...
Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão,
E provocaste a rajada,
Sôlta a flâmula agitada,
Aos urrahs da marujada,
Nas ondas da escravidão!
De bravos sorbebo estádio!
Das liberdades paládio,
Tomaste o punho do gládio,
E olhaste rindo p’ra o Val.
“Surgir de casa horizonte,
Senhores! Eis-me de fronte!”
E riste... O riso de um monte!
E a ironia de um chacal!
Cantem eunucos devassos
Dois reis os marmóreos paços,
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua,
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir!
Crioula! O teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Fugido, firme, duro,
Guardaste-o pr’a um nobre amor,
Negra Diana selvagem,
Que escultas, sob a ramagem,
As vozes, que traz a aragem,
Do teu rijo caçador!
Salve! — Amazonas guerreira!
Que nas rochas da clareira,
— Aos urros da cachoeira —
Sabes bater e lutar...
Salve! — nos cerros erguido —
Ninho, onde em sonho atrevido,
Dorme o condor... e o bandido,
A liberdade... e o jaguar!
Fazenda de Santa Isabel, agosto de 1870.
Castro Alves, (1847- 1871)[1]
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