Esse texto foi construído a partir da indagação feita por um jornalista sobre o porque do numero de crianças e jovens desaparecem tanto no Brasil e é crescente também em Alagoas. O texto serviu de base para a construção da matéria exibida no ultimo domingo, embora eu não tenha sido citado corretamente.
Pesquisas
apontam que o número de jovens que desaparecem no Brasil são referentes,
principalmente, a jovens negros, pobres e de classe média baixa, como o jovem
Davi, que está desaparecido desde agosto. Há alguma explicação para isso?
O Brasil apesar dos avanços sociais e econômicos, ainda é um
país altamente perigoso para que crianças e jovens tenham um desenvolvimento
pleno e condizente com o que preconiza os Direitos Humanos, a ONU e
principalmente o Estatuto da Criança e do Adolescente. E a meu ver, três
fatores contribuem para esse agravamento: em primeiro lugar há nessa pirâmide perversa
o próprio ambiente familiar. Estudos apontam que a maioria dos casos de
desaparecimento de crianças e jovens está intrinsecamente ligados com conflitos
oriundos de dentro das residências, tais como, espancamento, exploração sexual,
exploração de trabalho infantil, agressões verbais e físicas tanto nas crianças
e jovens, bem como entre os responsáveis pelos núcleos familiares, pais e mães,
principalmente nas famílias cujo nível econômico, social e cultural é fruto de
um longo processo de exclusão, discriminação e preconceito. À medida que o
nível de escolaridade, de renda e a aquisição de bens culturais diminui, maior
será o índice de vulnerabilidade social a qual a família estará exposta, assim
formando um circulo vicioso em que as principais vítimas são sempre os jovens e
as crianças, forçando muita das vezes a interferência de juizados, conselhos
tutelares no cotidiano dos lares, quando não há o desaparecimento sem rastros.
O segundo fator que está também interligado com os efeitos do
primeiro, é o agenciamento cada vez mais cedo de crianças e adolescentes para o
tráfico e consumo de drogas, muita das vezes por não encontrarem proteção e
afeto dentro dos lares, os jovens e crianças em situação de risco social
recebem amparo no mundo do trafico e passam a usufruir de bens e serviços que
antes não eram possíveis, e muitas das vezes são mortos, presos, desaparecem
sem deixar nenhum rastro e não recebem atenção dos órgãos que deveriam cuidar
dos casos.
O terceiro fator que
contribui para o alarmante crescimento de desaparecidos no país,de jovens na
faixa etária de 07 a 17 anos, vem do poder institucional praticado através dos
órgãos de defesa, em especial, de ações truculentas praticadas por uma parcela
significativa de policias treinados e colocados nas ruas de todo o país, de
forma errônea. É alarmante a quantidade de noticias que circulam diariamente na
mídia televisiva, impressa e cibernética relatando casos de desaparecidos e que
sob investigação se percebe a interferência direta de policiais nesses casos e
crimes contra a vida. Sem esquecer também dos casos de tráfico de pessoas que
sobe assustadoramente no país.
Em Alagoas não é diferente. Vivemos em um estado cujos os
piores índices encontram um terreno fértil para sua subsistência. É o estado
com maior índice de analfabetismo, com uma alta concentração de renda nas mãos
de poucos, um cenário político pobre de representação capaz de contornar o
atual cenário presenciado por longos anos no estado, sem falar que Maceió se
apresenta como a capital em que se comete o maior número de homicídios cujas as
principais vítimas são os jovens de 15 a 25 anos. Só no ano passado 12 crianças
e adolescentes desapareceram sem deixar rastros e o mais agravante é que esses
desaparecimentos não são solucionados. Entre esses casos, está o
desaparecimento do jovem Davi da Silva de 17 anos, que continua sem respostas
até hoje.
Quem são e onde viviam esses jovens desaparecidos,
assassinados e presos no estado? Em sua maioria são rapazes negros, oriundos
das periferias das grandes cidades. São Jovens que não possuem uma estrutura
familiar sólida. Não possuem acesso a políticas públicas de qualidade, que
permitam uma ascensão econômica pelas vias legais (emprego fixo, salários
condizentes com suas funções e não pela cor da pele), acesso aos bens culturais
e simbólicos, as práticas esportivas e transporte público de qualidade. E quando saem dos seus redutos ou guetos
passam por processos de descaracterização de suas identidades, de
marginalização dos seus lugares de origem, discriminação pela cor da pele, orientação
sexual, de gênero e credo religioso, seja por parte das classes mais bem
posicionadas economicamente, seja pelo estigma de que por ser pobre e negro é
facilmente identificado como bandido, ladrão por uma parcela significativa dos
organismos repressores do estado, que tem o objetivo de defender e proteger a
população, mas acaba por criminalizar na maioria das vezes quem é da periferia.
Nesse sentido, é preciso que o Estado produza condições
legais que possam atender as necessidades e as múltiplas situações encontradas
nas grandes cidades. Que permita acesso aos direitos civis e sociais tão
fortemente defendidos e elencados na Constituição Federal. É preciso também que
os setores da sociedade civil possam construir mecanismos de proteção que
englobem os menos assistidos, conscientizando- os para a defesa de suas
identidades, de seus papeis nos sistemas globais de convivência e de
pertencimento.
Nos dias de hoje é inadmissível que crianças e jovens
continuem sendo as principais vítimas dos complexos processos desiguais desde a
época do descobrimento do Brasil.
Pão de Açúcar, 22 de janeiro de 2015
Igor Luiz Rodrigues da Silva
Bacharel em Ciências Sociais
Mestre em Antropologia Social
Nenhum comentário:
Postar um comentário