UNIVERSIDADE
FEDERAL DE SERGIPE- UFS
NUCLEO
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA- NPPA
MESTRADO
EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
DISCIPLINA:
TEORIA ANTROPOLOGICA
SEMESTRE:
2012/1 Nº DE CRÉDITOS: 04
PROFESSOR:
HIPPOLYTE BRICE SOGBOSSI
ACADEMICO:
IGOR LUIZ RODRIGUES DA SILVA
Resenha
Critica sobre a obra: “Padrões de Cultura”, de Ruth Benedict, nos capítulos (I,
II, III, VII)
1.
Dados
Bibliográficos:
BENEDICT, Ruth. Padrões de Cultura. Tradução:
Alberto Candeias. Lisboa: livros do Brasil, 2000.
2. Apresentando
o autor da Obra:
Ruth
Benedict, nasceu na cidade de Nova York, no dia 06 de junho de 1887. Teve seus primeiros estudos no Vassar
College, chegando a concluir em 1909. Ingressou na Universidade de Columbia em
1919, tendo como uma de suas colegas a também antropóloga Margaret Mead. Em
1923 torna-se membro da mesma Universidade.
Foi aluna e orientanda do pai da Antropologia americana Franz Boas,
chegando a o nível de PhD. Faleceu em 17 de novembro de 1948 em Nova York.
3.
Perspectiva Teórica:
Ruth
Benedict está associada a escola americana de antropologia ,seguindo uma linha
de pesquisa baseada na escola “cultura e personalidade” e no relativismo
cultural. Assim o que a autora procura analisar em sua obra “Padrões de
Cultura”, é como as distintas culturas foram determinantes para o regulamento
da personalidade dos indivíduos que estão inseridos nela.
O
que deve essencialmente ser entendido, é o papel que o costume desempenha sobre
a vida dos indivíduos que estão inseridos e compõe uma determinada cultura. Neste
sentido cabe verdadeiramente conhecer como este “problema social” ,
definido por Benedict como tal, sobre costume, desempenha na conduta e formação
do individuo, e se torna um problema sem validade se não puder ser compreendido
em sua totalidade.
Para
tanto o método proposto pela autora, é o de agrupar o material que se torna
significativo para o estudo, e registrar todos os possíveis caminhos que eles
podem percorrer e suas variantes, tendo como objeto analítico as sociedades
primitivas, que como afirma Ruth Benedict, são importantes, porque ajudam e
fornecem respostas especificas de tipos culturais locais em oposição as mais
gerais da humanidade, e também avaliar o papel do comportamento cultural.
Tomando o todo como necessário para se compreender as diversidades culturais.
2. Sintese da Obra:
I Capitulo: A Ciência
do Costume.
No
primeiro capitulo Ruth Benedict, esta tratando sobre o papel e atuação da
ciência, em especial da antropologia, quando se trata de estudar os fenômenos
sociais e culturais da sociedade, fixando é claro a atenção para, como ela
própria argumenta, de estudar sociedades, cuidadosamente, que não fazem parte
do contexto da sua própria sociedade. Segundo a autora, cabe ao antropólogo
enquanto tal, evitar qualquer favorecimento de uma parte, de um fato em
oposição a outro, ou seja, o pesquisador deve primordialmente não fazer e não
dá tratamento preferencial a um fato a ser estudado.
Como
o próprio enunciado destaca, o costume dos antropólogos foi sempre considerar
os estudos sobre comunidades primitivas e tantos outros estudos, como um fato
propriamente inferior, partindo também, é claro, de uma ideia de
excepcionalidade do homem ocidental sobre os outros indivíduos que ocupam seu
lugar no mundo, como se as civilizações ocidentais fossem, e assumiram esse
ponto de vista por um longo período, de modelos padrões de desenvolvimento cultural,
tornando assim as outras culturas como inferiores e sem importância fundamental
para a cultura do “homem branco”.
Outro
ponto em destaque no primeiro capitulo é a argumentação para tentar desconstruir a confusão que sempre se
acostumou a fazer sobre distinção entre a perpetuação biológica e os processos
moldados pelo costume. Para Ruth Benedict, historicamente sempre se optou por
diferenciar os padrões culturais através das transmissões biológicas
perpetuadas nas mais variadas culturas, assim ela justifica que o homem é
obrigado a obedecer a qualquer estrutura biológica para regrar seu
comportamento, então a cultura não é uma estrutura social transmitida
biologicamente. “O colario que daqui deriva em política moderna é que não há
qualquer fundamento no argumento de que podemos confiar as nossas conquistas
espirituais e culturais a quaisquer plasmas germinais especiais hereditários”.
(BENEDICT, 2000 p.27)
No
final do primeiro capitulo a autora pontua abertamente uma critica aos
antropólogos anteriores a sua geração, por eles partirem de uma analise pautada
na evolução das culturas diferentes, desde as primeiras formas até o seu ultimo
grau de desenvolvimento.
II Capitulo: A
Diversidade de Culturas.
O
argumento principal deste capitulo, é mostrar e tratar as culturas pondo em
ênfase o seu caráter distintivo, de seus padrões perceptíveis nas mais
distintas sociedades, onde Ruth Benedict, pontua que esse caráter diverso é
marcado pela escolha de certos elementos, segmentos que são considerados fundamentais
para a delimitação da sociedade.
Para
marcar esta argumentação, a autora propõe seis pontos de analise que fornecem
exemplos claros de sociedades primitivas que se utilizam de alguns fatores para
se diferenciar das outras: adolescência e puberdade; o fator da guerra;
costumes relacionados ao casamento; as feições culturais; os espíritos
guardiões e visões; o casamento e a igreja. Cada ponto é abordado levando em
conta os processos fixados como essenciais na interação do grupo.
No
fato dos rituais de puberdade é preciso entender tal processo, como um fato
social em que certos, os rituais de puberdade nos homens em culturas, como na
Austrália é dado mais atenção do que do rito de passagem nas mulheres. Já na
África Central, este ritual de passagem é mais acentuado do que o dos homens.
Sobre a guerra, a autora faz distinção entre culturas que se utilizam da guerra
e outras que se quer nunca ouviram falar dela. A guerra também é outro fato
social. A guerra é guerra não porque ela produz um estado de tensão entre
culturas, ou entre tribos, mas pelo seu caráter e sua importância dada a ela.
Os outros pontos como o casamento, as feições culturais, os espíritos guardiões
e visões, casamento e igreja, seguem padrões que são exclusivamente tratados
como particulares de cada cultura, não importando, no entanto o grau de
diferenciação de uma para outra.
III Capitulo: Integração de Culturas.
No
terceiro capitulo, o ponto central de analise, é pautado na discussão sobre os
padrões que normatizam e mantem as culturas diversas através dos padrões de
comportamento, produzidos e reproduzidos pelos indivíduos. A diversidade do
costume para Ruth Benedict, não pode ser algo que se deva limitar sua
compreensão, posto que tais sistemas não se esgotem com as analises já
produzidas.
O
que interessa verdadeiramente é uma investigação que priorize o conjunto da
cultura em sua totalidade e amplitude e não os componentes particulares que os
torna única, assim, se passar a compreender desse ponto de vista, sob o prisma
da integração desses elementos, o estudo terá atingido seu fim único. Então o
trabalho do antropólogo não pode ser apenas o de entender os processos
separadamente um dos outros, mais sim eu seu processo articulado, indo no
sentindo oposto do que faziam os antropólogos de gabinete, que não se
preocuparam em entender: “Segundo o que hoje se pensa, o que é primordial é
estudar a cultura viva, conhecer os seus hábitos de pensamento e as funções das
suas instituições, e tal conhecimento não pode resultar de dissecções
post-mortem e de posteriores reconstituições”. ( BENEDICT, 2000, p. 63)
A
autora mais uma vez sustenta que tal analise somente pode ser feita, se forem
dirigidas tais pesquisas, com os povos e culturas primitivas, pois tais
culturas produzem fatos culturais mais simples de serem esclarecidos, em
oposição aos fatos culturais da cultura Europeia Ocidental. Assim ela
justifica:
As configurações
culturais são tão coercivas e tão significantes nestas como nas mais elevadas e
mais complexas sociedades que temos conhecimento. Mas o material é nestas
demasiadamente inextricável e esta demasiadamente próximo da nossa vista para
podermos trabalhar com êxito. (
BENEDICT, 2000, p. 69)
VII Capitulo: A
Natureza da Sociedade.
O
terceiro capitulo, pontua as diversidades das diferenças entre culturas, onde a
principal argumentação é que, são diferentes porque se orientam em direções
opostas, possuem objetivos diferentes, normas e condutas que são seguidas de
acordo com o que se considera importante. “O trabalhador de campo deve ser
estritamente objetivo. Tem de relatar todo o comportamento de natureza relevante,
tendo o cuidado de não selecionar, de acordo com qualquer hipótese aliciante,
os fatos que se ajustem a uma tese”. (BENEDICT, 2000, p.253) Ou seja cabendo ao
pesquisador tentar entender positivamente os fatos observados e assim como os
vê, traduzi-los para o seu estudo de maneira que não haja uma transformação do
que se viu, levando em consideração é claro o conjunto em sua totalidade, o que
tornará o trabalho muito mais fácil de ser aceito.
5.
Avaliação Critica da Obra:
Padrões
de Cultura de Ruth Benedict é uma obra que mantem seu lugar de destaque dentro
da antropologia social, por ter sido um estudo que inaugurou, de certa forma,
um novo método de analise sobre cultura, influenciada pelo seu professor e
orientador Franz Boas. Ao pontuar que se deveria deixar de lado todo o processo
de construção de analise através do método comparativo e evolucionista, de
entender as sociedades primitivas, Ruth Benedict enfatiza que estes
antropólogos tornavam sempre a entender os aspectos da cultura através de uma
sequencia evolutiva para explicar as mais variadas diferenciações, quando na
verdade, segundo ela, o que torna as culturas particulares, e diferentes uma
das outras, é o como são feitas as escolhas de certos segmentos nas
instituições culturais pelo grupo.
O
que Ruth Benedict tenta argumentar é que os indivíduos são regrados, dentro de
uma determinada cultura, pelas normas e costumes, sem as quais não teria
sentido viver, o homem não poderia funcionar sem que estivesse sendo conduzido
pelas formas tradicionais que se fazem presentes em sua sociedade. Neste ponto
cabe uma intervenção, pelo que se entende o que a autora tá propondo e
verificando, é que a personalidade do individuo ela é formada pelas normas e
valores que são transmitidos pelos padrões culturais, cujo individuo não tem
outro caminho a seguir, há não ser este que já se faz presente antes mesmo do
seu nascimento, o individuo não é dotado de vontades próprias, como ela coloca
nessa passagem: “Ninguém pode participar completamente em qualquer cultura se
não tiver sido criado dentro de suas formas e vivido de acordo com elas; mas
todos podem conceder que outras culturas têm, para os seus participantes, o
mesmo significado que se reconhece na sua própria. (BENEDICT, 2000, p.49).
Outro
ponto que merece ser analisado é o fato, de tratar a cultura e suas implicações
como um fato social total, em várias passagens do livro, a autora, coloca que é
mais interessante para a pesquisa antropológica, e muito mais eficaz, analisar
a cultura através do seu conjunto, de sua totalidade, se torna muito mais
convincente. “O todo determina as suas
partes, e não só a sua relação, mas também a sua verdadeira natureza”. (BENEDICT,
2000, p.65), como também demonstra em outra passagem, essa defesa insistente em
uma analise mais total dos fatos. “As representações do todo são, assim, para o
estudioso muito mais convincentes”. (BENEDICT, 2000, p. 253)
O
que é passivo de critica esta justamente, na implicação de na antropologia
querer estudar e analisar todo e qualquer fato social em sua totalidade, o que
não se tem na atualidade não mais tentado fazer, o que é interessante para os
antropólogos e de certa forma também, para os cientistas sociais, é tentar
entender e explicar o nosso objeto de analise
através de uma visão micro e que possa dar conta de fazer entender e chegar o
mais próximo possível da realidade
investigada. Desse ponto de
vista, ao contrario do que se propõe Ruth Benedict, o pesquisador esta correndo
mais risco de cair em contradição, do que estudando as partes que compõe o
todo, é claro sempre pautado e respaldado pelo contexto em que o objeto esta
inserido.
No
mais a obra fornece uma um argumento teórico que deve ser dado seu devido
valor, pois permitiu romper com a forma evolucionista de compreender as
culturas. É uma obra que deve ser lida,
entendida e amplamente discutida sim no curso obrigatório de antropologia, pelo
seu caráter inovador e provocante de perceber
e ver o campo da cultura.